Exército israelita afasta procuradora que denunciou abusos a palestinianos

Lusa | 26 de Maio de 2026 às 17:52
Gaza
Gaza FOTO: AP

O caso remonta a 2024, em plena guerra na Faixa de Gaza, quando foi divulgado um vídeo exibindo soldados a maltratar um prisioneiro palestiniano na cadeia militar de Sde Teiman, no sul de Israel.

O exército israelita afastou a antiga procuradora-geral militar Yifat Tomer-Yeroushalmi, que já se tinha demitido das suas funções na sequência da divulgação de um vídeo mostrando soldados a maltratar um prisioneiro palestiniano.

Segundo a imprensa israelita, a decisão anunciada esta terça-feira pelo exército implica que a antiga procuradora perderá o direito a uma pensão, ao mesmo tempo que enfrenta um processo criminal sobre a divulgação do vídeo, pelo qual poderá ser também despromovida.

“À luz do longo processo criminal e considerando a gravidade dos atos e suspeitas alegados, o chefe do Estado-Maior decidiu demitir (…) a ex-procuradora-geral militar”, referiu o exército em comunicado.

O ministro da Defesa, Israel Katz, saudou o afastamento da ex-procuradora, declarando que “qualquer pessoa que difame” os soldados “não tem lugar no exército”.

O caso remonta a 2024, em plena guerra na Faixa de Gaza, quando foi divulgado um vídeo exibindo soldados a maltratar um prisioneiro palestiniano na cadeia militar de Sde Teiman, no sul de Israel.

O anúncio da detenção e acusação de cinco soldados provocou indignação dentro do exército e em parte da classe política, numa altura em que Israel estava em guerra com o grupo islamita palestiniano Hamas.

O centro de detenção de Sde Teiman foi estabelecido numa base militar para deter palestinianos sobretudo provenientes da Faixa de Gaza após o início da guerra, desencadeada em outubro de 2023 pelos massacres liderados pelo Hamas no sul de Israel.

O jornal The Jerusalem Post relata esta terça-feira que o chefe das forças armadas, Eyal Zamir, suspendeu inicialmente Tomer-Yerushalmi do cargo em outubro de 2025, após a abertura de uma investigação da procuradora-geral, Gali Baharav-Miara, sobre a fuga do vídeo para a imprensa.

Tomer-Yerushalmi acabou por se demitir de funções após reconhecer que libertou as imagens, com o argumento de que procurava combater a desinformação que circulava sobre o caso e mostrar que as forças armadas estavam a adotar medidas concretas em relação aos soldados suspeitos.

“Assumo total responsabilidade por todas as provas que foram enviadas aos meios de comunicação social por esta unidade. Com base nessa responsabilidade, decidi também terminar o meu cargo”, escreveu na altura.

Após a detenção dos suspeitos pela polícia militar, centenas de manifestantes conservadores, incluindo deputados que apoiam a coligação de direita no poder e até um ministro, tentaram invadir as instalações onde se encontravam os militares, recorda o jornal The Times of Israel.

Os cinco elementos das forças israelitas foram acusados de espancamento e agressões sexuais e com uma faca ao prisioneiro palestiniano, deixando-o com ferimentos graves, incluindo costelas partidas.

O substituto de Tomer-Yerushalmi, Itay Offir, acabou por deixar cair as acusações, justificando com dificuldades probatórias no caso, combinadas com o escândalo em torno do vídeo vazado, e que levaram a que a própria antiga equipa de acusação fosse investigada, de acordo com o The Jerusalem Post.

A imprensa israelita refere que a própria ex-procurador esteve temporariamente em prisão domiciliária e quando se tornou alvo do caso que procurou denunciar cometeu duas tentativas de suicídio.

Organizações de defesa dos direitos dos prisioneiros palestinianos acusam frequentemente a administração penitenciária israelita de maus-tratos aos reclusos.

A forma como Israel trata os seus prisioneiros esteve em foco na semana passada, quando o ministro da Segurança Nacional, o ultranacionalista de extrema-direita Itamar ben-Gvir, surgiu num vídeo a humilhar ativistas internacionais da flotilha humanitária detida na sua rota programada para a Faixa de Gaza.

A guerra foi desencadeada pelos ataques liderados pelo Hamas em 07 de outubro de 2023 no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1.200 pessoas e 251 foram feitas reféns.

Em retaliação, Israel lançou uma operação militar em grande escala no enclave, que provocou mais de 72 mil mortos, segundo as autoridades locais co0ntroladas pelo Hamas, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.

Um cessar-fogo mantém-se em vigor desde 10 de outubro do ano passado, apesar de sucessivas acusações de violações pelas partes, que ainda não avançaram para as fases seguintes do diálogo visando um acordo de paz.