“Se considerarmos toda a Europa, estamos a falar de entre 4.000 e 5.000 missões de voo”, sublinhou o secretário-geral da Aliança Atlântica.
O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, revelou que “500 aeronaves norte-americanas descolaram de bases americanas em Itália” durante a guerra contra o Irão iniciada em 28 de fevereiro, levando a oposição a exigir esclarecimentos da primeira-ministra.
Em entrevista ao canal televisivo norte-americano Fox News, Rutte rejeitou a narrativa de que os aliados europeus dos Estados Unidos não prestaram ajuda durante a guerra com o Irão — uma queixa recorrente do Presidente norte-americano, Donald Trump —, argumentando que este número relativo a voos realizados a partir de bases em Itália durante a chamada “Operação Fúria Épica” é “um número enorme”.
“Se considerarmos toda a Europa, estamos a falar de entre 4.000 e 5.000 missões de voo”, sublinhou o secretário-geral da Aliança Atlântica.
Durante a campanha militar contra o Irão, o governo italiano indicou que permitiria aos Estados Unidos utilizar as suas bases para operações normais e voos logísticos, em conformidade com um tratado bilateral, mas recusou, em março, a autorização para que bombardeiros utilizassem a base aérea de Sigonella, na Sicília, o que provocou a ira de Trump e o azedar de relações com a primeira-ministra, Giorgia Meloni.
A revelação de Mark Rutte já está a suscitar reações entre os partidos da oposição em Itália, que exigem “esclarecimentos imediatos” do governo de direita e extrema-direita liderado por Meloni.
“Segundo Rutte, as bases em Itália desempenharam um papel enorme no apoio à guerra ilegal de Trump e [do primeiro-ministro israelita Benjamin] Netanyahu contra o Irão, o que é contrário aos nossos princípios e interesses”, apontou Giuseppe Provenzano, do Partido Democrático, principal força política da oposição de centro-esquerda.
Lembrando que “Meloni tinha garantido que a Itália não se envolveria”, Provenzano disse que se ficou agora “a saber que pelo menos 500 aviões norte-americanos descolaram de solo italiano”, o que confirma as preocupações manifestadas anteriormente no parlamento e às quais o governo deu “respostas vagas”.
“O governo italiano, e a primeira-ministra em particular, tem o dever de esclarecer urgentemente estas graves alegações”, disse, lamentando que Itália tenha auxiliado à “projeção do poder americano, na lógica de Trump, da lei do mais forte, em violação do direito internacional”.
Também o líder do Movimento 5 Estrelas (M5S, partido populista de centro-esquerda), o antigo primeiro-ministro Giuseppe Conte, comentou que as declarações de Mark Rutte contradizem o que o governo de Meloni foi dizendo ao longo da campanha de bombardeamentos, concluindo que “os contos de fadas do governo e dos seus defensores estão a desmoronar-se”.
“As palavras de Rutte confirmam o que sempre dissemos… 500 aviões partiram da Itália para uma guerra ilegítima no Irão, uma guerra para a qual Netanyahu arrastou Trump e que prejudicou gravemente a economia italiana […] É imperativo que a primeira-ministra Meloni compareça perante o parlamento e a nação para prestar os esclarecimentos necessários”, sustentou.
Enquanto os partidos da oposição aguardam por esclarecimentos de Meloni, a primeira reação por parte do governo surgiu através do Ministério da Defesa italiano, segundo o qual as afirmações de Mark Rutte são “enganosas”, uma vez que Roma apenas autorizou a utilização das bases norte-americanas em Itália para operações de rotina durante a guerra com o Irão, e não para missões de combate ofensivas.
“É surpreendente que o secretário-geral da NATO, que nada tem a ver com a ‘Operação Fúria Épica’, apresente um relato que transmite uma mensagem completamente enganosa ao confundir os tipos de voos autorizados. Apenas foram autorizadas atividades técnicas e logísticas, não cinéticas, no âmbito dos procedimentos estabelecidos pelos acordos existentes. Sempre que foi apresentado um pedido fora deste âmbito, como é do conhecimento geral, a Itália não concedeu autorização”, garantiu esta quarta-feira o Ministério da Defesa, num comunicado publicado à tarde para “evitar polémicas desnecessárias e infundadas”.