"As crianças são apanhadas através da Internet e ao serem apanhadas usam esquemas, fogem de casa, fogem das instituições, e são elas que se vão pôr, entre aspas, na boca do lobo", disse Manuel Coutinho.
O presidente do Instituto de Apoio à Criança (IAC) disse esta segunda-feira que a predominância das denúncias na linha SOS Criança Desaparecida está relacionada com "pesquisas perigosas" na internet onde são aliciadas a terem comportamentos de risco.
"As crianças são apanhadas através da internet e ao serem apanhadas usam esquemas, fogem de casa, fogem das instituições, e são elas que se vão pôr, entre aspas, na boca do lobo", disse Manuel Coutinho aos jornalistas, alertando que 532 crianças desapareceram nos últimos quatro anos mas a maior parte foram recuperadas.
O responsável falava na sede o instituto, em Lisboa, onde decorreu um evento que assinalou o Dia Internacional das Crianças desaparecidas.
Observou que os menores que se encontram com essas pessoas que conheceram via internet "vêm, por vezes, um bocadinho maltratadas, umas vêm abusadas sexualmente" e outras "com marcas psicológicas muito profundas".
O inspetor-chefe da Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária, Hugo Silva, também presente no evento alertou para o número crescente de jovens envolvidos na preparação ou execução de atos extremistas violentos.
Em 2024, cerca de 29% dos detidos por crimes relacionados com terrorismo e extremismo violento eram menores ou jovens adultos, tendo o mais novo 12 anos, segundo Hugo Silva.
Em relação aos casos de rapto parental, o número de denúncias subiu para 17 no ano passado, mais nove do que em 2024.
Para o presidente do IAC, estas situações devem-se a desentendimentos entre os pais, situações em que um dos progenitores ganha a custódia da criança, mas o outro desobedece às ordens do tribunal e "vai buscar o filho".
"É natural, é o instinto humano, que é o pai que fica privado, ou a mãe que fica privada daquele filho, corra atrás dele, e às vezes colide com a lei. Não devia ser assim, mas é", explicou Manuel Coutinho.
Dentro das denúncias sobre menores raptados por terceiros, a linha registou um aumento no ano passado, tendo sido contabilizadas sete queixas, mais seis do que em 2024.
De acordo com os dados do IAC, as denúncias relacionadas com menores que se perderam ou ficaram feridos subiram em 2025 para nove, mais sete casos do que em 2024.
O número de denúncias associadas a um risco de desaparecimento de crianças subiu para oito casos no ano passado, sendo que em 2024 foram contabilizadas três.
As sinalizações que mais diminuíram estão relacionadas com fugas institucionais, passando de dez casos em 2024 para dois casos no ano passado, estando estas associadas a uma menor sinalização por parte das instituições, segundo a coordenadora da Linha SOS Criança Desaparecida, Maria João Cosme.
"As instituições estão habituadas a esse tipo de comportamento por parte dos jovens e muitas vezes não reportam", disse à Lusa no intervalo do evento.
O IAC associa-se este ano à campanha europeia BlueForHope (Azul Pela Esperança) promovida pela associação europeia, Missing Children Europe (Crianças desaparecidas na Europa), que apela à iluminação de edifícios e monumentos de azul de forma simbólica.
A Linha SOS Criança Desaparecida pode ser contactada através do número 116 000, que é gratuito, confidencial e disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.