Venda de medicamentos para obesidade dispara e ultrapassa meio milhão de embalagens em 2025

Lusa | 04 de Março de 2026 às 12:52
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Medicamentos FOTO: iStockphoto

A Associação Nacional de Farmácias ressalva que o Mounjaro possui indicações terapêuticas para a diabetes mellitus tipo 2 e controlo de peso.

A venda de medicamentos para a obesidade disparou em 2025, ultrapassando meio milhão de embalagens vendidas, quase cinco vezes mais do que em 2024, apesar de não serem comparticipados e poderem custar mais de 300 euros por mês.

Segundo dados da Associação Nacional de Farmácias (ANF), com base em informação da Health Market Research (HMR), o “crescimento significativo” em 2025 foi “impulsionado principalmente pela entrada do Mounjaro e do Wegovy” no mercado em Portugal.

Os dados divulgados à agência Lusa, a propósito do Dia Mundial da Obesidade, assinalado esta quarta-feira, mostram uma procura crescente por estes fármacos desde 2019, ano em que foram vendidas 45.787 embalagens em 2019, até chegar às 572.256 em 2025.

Em 2020 foram vendidas 46.500 (+1,6%) embalagens, número que subiu para 55.173 (+18,7%) em 2021, 60.259 (+9,2%) em 2022, 82.513 (+36,9%) em 2023, 119.588 (+44,9%) em 2024 e alcançou 572.256 (+378,5%) no ano passado.

Atualmente, estão disponíveis no mercado em Portugal, para o tratamento da obesidade, medicamentos contendo Orlistato, Mysimba (bupropiom + naltrexona), Saxenda (liraglutido), Wegovy (semaglutido) e Mounjaro (tirzepatida).

A Associação Nacional de Farmácias ressalva que o Mounjaro possui indicações terapêuticas para a diabetes mellitus tipo 2 e controlo de peso.

A comparticipação destes fármacos tem sido reivindicada por especialistas, médicos e associações de doentes, que defendem a sua importância no combate à obesidade.

Outra das estratégias de tratamento é a cirurgia bariátrica/metabólica, cuja atividade aumentou no Serviço Nacional de Saúde em 2025.

Segundo dados da Direção Executiva do SNS, foram realizadas, em 2025, 4.005 cirurgias, mais 312 do que em 2024 (3693) e mais 581 comparativamente a 2023 (3424).

O tempo médio de espera para cirurgia foi de 4,75 meses, referem os dados, segundo os quais, no final de 2025, 1811 doentes estavam na lista de inscritos para cirurgia.

A lei estabelece que as cirurgias de prioridade normal devem ser realizadas num prazo máximo de seis meses (180 dias).

Em declarações à Lusa, a presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), Paula Freitas, afirmou que “os centros de tratamento cirúrgico de obesidade estão a funcionar cada vez melhor”, mas a procura continua muito elevada.

Exemplificou que no centro onde trabalha, na ULS São João, são operados cerca de mil doentes por ano, mas a lista de espera é grande, porque há “muitos, muitos doentes a precisar de uma solução cirúrgica”.

Além disso, explicou a endocrinologista, muitos deles precisam de tratamento farmacológico antes e depois da cirurgia.

A especialista reforçou que “a obesidade é uma doença crónica, muito complexa”, em que os doentes ao longo da vida vão precisar de todas as estratégias disponíveis.

“Felizmente, temos agora boas estratégias e esperamos ter ainda melhores no futuro”, com a evolução da cirurgia e dos fármacos, disse Paula Freitas, defendendo que são necessárias “muitas ferramentas para tentar tratar esta patologia tão grave e que causa tanta morte”.

Sobre os novos fármacos, a especialista disse que “são muito eficazes” para tratar estes doentes, defendendo a importância de serem comparticipados.

Relativamente ao preço elevado destes medicamentos, Paula Freitas afirmou que “muitas vezes” tem que se olhar para o custo como um investimento.

“É verdade que para algumas pessoas há uma inacessibilidade completa, mas para outras, a pessoa pode pensar como um investimento que está a fazer em ganhos em saúde e em prolongar a sua vida”, sublinhou.

A especialista admite, contudo, que a obesidade é mais prevalente nas classes sociais mais desfavorecidas e, para muitas, não vai ser possível ter acesso.

“Por isso é que também lutamos para que haja mais acessibilidade para os doentes que têm obesidade e que precisam, independentemente do seu ‘status’ socioeconómico”, defendeu a presidente da SPEDM.