Abbas defende que Hamas pode manter-se como partido se aceitar dois Estados

Lusa | 11 de Novembro de 2025 às 18:20
Mahmud Abbas
Mahmud Abbas FOTO: AP

Para que o desarmamento ocorra, é necessário chegar a um acordo interpalestiniano, segundo o dirigente da Fatah, movimento rival do Hamas, a ser "apoiado por mediadores e parceiros internacionais", bem como uma força internacional de estabilização, cuja criação está a ser negociada no Conselho de Segurança da ONU.

O presidente da Autoridade Palestiniana defendeu esta terça-feira que o grupo islamita Hamas pode manter-se como partido no pós-guerra na Faixa de Gaza, se aceitar a Constituição, as normas internacionais e a solução de dois Estados.

"Não excluímos ninguém da política, desde que todos os partidos aceitem a legitimidade palestiniana, a natureza democrática e não militarizada do Estado palestiniano, bem como os princípios da transição pacífica do poder e da rejeição da violência", declarou Mahmud Abbas numa entrevista publicada esta terça-feira pelo jornal "Le Figaro".

Na entrevista, concedida durante a sua visita a Paris, onde foi recebido pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, o líder palestiniano insistiu que "o Hamas não governará Gaza" num cenário futuro para o território.

Abbas reconheceu, no entanto, que o desarmamento dos islamitas é uma das condições para a manutenção do cessar-fogo, em vigor no enclave desde 10 de outubro, uma vez que se trata de "um processo político e de segurança complexo que não pode ser alcançado apenas pela força".

Para que o desarmamento ocorra, é necessário chegar a um acordo interpalestiniano, segundo o dirigente da Fatah, movimento rival do Hamas, a ser "apoiado por mediadores e parceiros internacionais", bem como uma força internacional de estabilização, cuja criação está a ser negociada no Conselho de Segurança da ONU.

Uma vez desarmado e embora em princípio "não tenha qualquer papel governativo em Gaza", o Hamas poderá transformar-se num partido político, defendeu.

Como condições, elencou o respeito pelo programa político e as obrigações externas da OLP (Organização para a Libertação da Palestina, que constitui a base da Autoridade Palestiniana) e a solução de dois Estados baseada na legitimidade internacional, com Israel e Palestina lado a lado.

Abbas, de 89 anos, reiterou que haverá eleições gerais, presidenciais e legislativas no ano seguinte ao fim da guerra, através de procedimentos "transparentes e democráticos", com base na nova Constituição de transição que está a ser ultimada.

Este texto, especificou, estabelece que só podem participar nas eleições aqueles que cumpram as regras previstas, incluindo os partidos políticos, e que exigem que os candidatos respeitem "as obrigações internacionais do Estado da Palestina".

O presidente palestiniano observou que, para já, o cessar-fogo na Faixa de Gaza está a manter-se, mas para que perdure é necessário "abordar as causas profundas do conflito", o que diz implicar o fim da ocupação israelita e "permitir que o legítimo governo palestiniano exerça plenamente a sua autoridade" no território.

A este propósito, indicou que as autoridades de Ramallah estão a trabalhar com os parceiros para conseguir a retirada das tropas israelitas e o estabelecimento da força internacional de estabilização, "que apoiará o destacamento de forças de segurança palestinianas legítimas".

Abbas destacou que as forças palestinianas receberam o treino necessário no Egito e na Jordânia e irão coordenar-se com a força de estabilização para que "Gaza se torne uma zona de paz e segurança sob plena soberania palestiniana, sem fações armadas ou armas fora da estrutura do Estado palestiniano".

A primeira fase do acordo entre Israel e Hamas, impulsionado pelos Estados Unidos com a mediação do Egito, Qatar e Turquia, inclui a troca de reféns e prisioneiros, a retirada parcial das forças israelitas do enclave e o acesso de ajuda humanitária ao território.

A etapa seguinte, ainda por acordar, prevê a continuação da retirada israelita, o desarmamento do Hamas, bem como a reconstrução e a futura governação do enclave.

A guerra na Faixa de Gaza foi desencadeada pelos ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1200 pessoas e 251 foram feitas reféns.

Em retaliação, Israel lançou uma operação militar em grande escala na Faixa de Gaza, que provocou mais de 69 mil mortos, segundo as autoridades locais controladas pelo grupo islamita, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação forçada de centenas de milhares de pessoas.