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A ABB venceu o concurso público com a proposta de valor mais baixo, mas, na conversa gravada, é sugerido que o anterior executivo camarário, liderado por Joaquim Pinto Moreira (PSD), teria dado margem para que eventuais disputas fossem resolvidas judicialmente.
O dono da empresa responsável pela maior obra pública de Espinho foi gravado a sugerir ao Presidente da Câmara Municipal que solicitasse apoio financeiro ao Governo, então liderado pelo Partido Socialista, para colmatar a derrapagem orçamental associada à requalificação do túnel ferroviário da cidade. Durante a reunião, ficou ainda subentendido que existiria um entendimento para que a solução passasse por uma resolução em tribunal.
O encontro teve lugar poucos meses após a eleição do atual Presidente da autarquia, Miguel Reis, também do PS. Para além do autarca e do empresário Gaspar Borges, proprietário da construtora ABB, estiveram presentes Nuno Cardoso, chefe de gabinete, e Maria João Rodrigues, responsável pela Divisão de Gestão Administrativa, Financeira e Turismo.
Em cima da mesa estava o rombo nas contas de uma obra que está agora sob investigação criminal: a requalificação do túnel ferroviário. O projeto, que conheceu sucessivos atrasos e derrapagens financeiras, teria, segundo o empresário, um défice de vários milhões de euros — em concreto, seis milhões.
A ABB venceu o concurso público com a proposta de valor mais baixo, mas, na conversa gravada, é sugerido que o anterior executivo camarário, liderado por Joaquim Pinto Moreira (PSD), teria dado margem para que eventuais disputas fossem resolvidas judicialmente.
Já em funções, Miguel Reis terá reafirmado que a autarquia não dispunha de verbas para cobrir os custos adicionais, chegando mesmo a ironizar com a possibilidade de “vender a Câmara” para resolver o problema.
Entre as declarações mais surpreendentes da reunião está a sugestão do dono da ABB, que indicou que o autarca poderia tentar encontrar uma solução junto do Governo socialista da altura.
A conversa termina sem qualquer solução concreta à vista. Entretanto, tanto a ABB como a obra em causa são alvo de um processo-crime movido pelo Ministério Público. Os dois presidentes da Câmara — o anterior, Pinto Moreira, e o actual, Miguel Reis — encontram-se envolvidos no processo judicial conhecido como “Operação Vórtex”.
Contactado, o dono da construtora ABB recusou prestar declarações.