A contestação social ganha força em vários países europeus, que tem levado a confrontos entre protestantes e a polícia.
Milhares de manifestantes saem às ruas em França, Espanha e na Bélgica numa onda de protestos que revela o descontentamento da população perante a liderança governativa destes países.
A contestação social ganha assim força em vários países europeus, que tem levado a confrontos entre protestantes e a polícia. Na Bélgica, os episódios de violência levaram a múltiplas detenções.
Mas, afinal, quais são os motivos que levam milhares às ruas europeias?
Despejo de Maricarmen Abascal leva a acampamento de protesto em Madrid
Em Espanha, a manifestação convocada pelo Sindicato de Inquilinas arrancou no fim do mês de setembro e, a 3 de outubro, em Madrid, intensificou-se com o caso de despejo de Maricarmen Abascal, uma mulher de 87 anos, da sua própria casa.
A idosa recebia uma pensão que rondava os 1300 euros e, com a aquisição do prédio por parte da Urbagestión, a sua renda foi elevada para 2650 euros.
Depois de quatro tentativas de despejo contra Maricarmen, a mulher acabou por sair em setembro, deitada numa maca uma vez que tinha mobilidade reduzida e deslocava-se de cadeira de rodas. Abandonou a sua casa apenas com uma mala, acompanhada pela família.
Vivia naquela habitação há mais de 70 anos e foi retirada à força pela polícia. Imagens marcantes que apelaram à empatia dos espanhóis, numa luta simbólica que denuncia a crise habitacional vivida no país: falta de casas a preços acessíveis e a subida das rendas.
Assim, na praça Porta do Sol, no centro da capital espanhola, foi montado um acampamento de protesto pela crise na habitação, com mais de mil tendas na rua.
O acampamento foi sendo replicado na última semana por outras cidades de Espanha, mobilizando 950.000 pessoas em mais de 50 localidades do país.
Perante o caso de Maricarmen, que acabou por falecer duas semanas depois de ter sido despejada da casa onde viveu durante sete décadas, os manifestantes pedem maior proteção contra o despejo de inquilinos vulneráveis, bem como contratos de arrendamento mais longos ou renovados automaticamente e limites mais rigorosos na subida do valor da renda.
Foi convocada uma greve geral no dia 11 de novembro, véspera do arranque da campanha eleitoral das legislativas nacionais antecipadas, anunciaram na quarta-feira os sindicatos.
Esta vai ser a primeira greve geral em Espanha convocada pelas duas grandes centrais sindicais do país em 14 anos e responde a um apelo das associações reunidas na Confederação de Sindicatos de Inquilinas.
A data "foi fechada" com a outra grande central sindical espanhola, a CCOO ("Comisiones Obreras"), e será uma paralisação de 24 horas, disse o secretário-geral da central sindical UGT, Pepe Álvarez.
Quase seis mil menores detidos em França
Caixotes do lixo incendiados, escolas bloqueadas e abrigos de autocarro vandalizados pintam as ruas de França nos protestos estudantis dos últimos dias. A violência das manifestações obrigou à mobilização de um forte dispositivo policial e já surgem acusações de brutalidade policial.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos manifestou preocupação face à violência que se faz sentir pelo país, apelando a que as "manifestações permaneçam pacíficas" e "que não haja uso desproporcional da força por parte das autoridades policiais".
Mais de seis mil manifestantes foram detidos desde a semana passada, a maioria menores. As autoridades usam gás lacrimogéneo e canhões de água para responder à violência dos protestos que já feriram dezenas de polícias. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, garantiu esta quarta-feira que as forças de segurança nacionais “não têm instruções para confrontar os estudantes”.
Já foi aberta uma investigação a um polícia que deu joelhada no rosto de manifestante na Praça da Bastilha nos protestos desta quinta-feira. Um estudante de 15 anos perdeu ainda a mão devido a uma granada de fumo durante confrontos com as forças policias e um aluno de 14 anos sofreu uma dupla fratura no maxilar ao ser atingido por uma granada de gás lacrimogéneo. Há pelo menos dez investigações de abusos policiais durante os protestos.
As manifestações começaram com alunos e professores da escola secundária de Saint-Exupéry a denunciar a falta de funcionários e de recursos na escola. Nos dias que se seguiram, estudantes do Secundário e do Ensino Superior, docentes, pais e sindicatos aderiram aos protestos que se alastraram pelo país. Pedem turmas mais pequenas, mais professores e melhores infraestruturas, rejeitando os cortes no setor público e na educação apresentados no projeto orçamental do Governo para 2027.
Jovens atiram pedras e fogo de artifício contra autoridades na Bélgica
Os protestos chegaram também à Bélgica: mais de 50 mil pessoas saíram às ruas esta sexta-feira para denunciar o aumento do custo de vida e as medidas de austeridade anunciadas pelo governo.
Os confrontos entre a polícia e os manifestantes estão a marcar a escalada de violência em Bruxelas, com jovens encapuzados a arremessar pedras e fogo de artifício contra as forças policiais. As autoridades responderam com gás lacrimogéneo e canhões de água para dispersar os protestantes. Pelo menos 21 pessoas foram detidas na capital belga, incluindo 13 menores de idade
Os transportes públicos e o tráfego aéreo estão a ser afetados pelas manifestações, com 140 voos cancelados e apenas duas linhas de metro em funcionamento.
A Federação Geral dos Trabalhadores da Bélgica (FGTB) e a Confederação dos Sindicatos Cristãos (CSC) convocaram ainda uma greve geral contra os cortes orçamentais para o início da próxima semana. Os sindicatos defendem que as medidas do governo vão afetar os trabalhadores, pensionistas e as famílias de baixo rendimento.