Santuário no Alentejo vai ser nova 'casa' do último elefante de circo em Portugal

Lusa | 07 de Maio de 2026 às 14:25
FOTO: Nuno Veiga/LUSA_EPA

Victor Hugo Cardinali admitiu que "esta não foi uma decisão fácil", porque Julie "é um membro profundamente querido da família há mais de 30 anos".

O último elefante de circo em Portugal vai ser transferido para o santuário da Pangea, no Alentejo, em junho, fruto de um acordo entre a Pangea Trust e o Circo Victor Hugo Cardinali, foi esta quinta-feira anunciado.

Em comunicado conjunto, as duas entidades explicaram que "o acordo foi alcançado de forma voluntária, num espírito de compromisso partilhado pelo bem-estar" deste elefante fêmea, chamado Julie.

"Julie chegou a Portugal vinda do sul de África, ainda cria, e juntou-se ao Circo Victor Hugo Cardinali em 1988. Foi retirada de atividade em 2024, ano em que entrou plenamente em vigor a legislação portuguesa que proíbe animais selvagens em circos" e quando "faleceu a sua última companheira", referiram.

De acordo com o comunicado, "enquanto o Circo Victor Hugo Cardinali ponderava o futuro de Julie, a Pangea reuniu condições para lhe oferecer um lar definitivo", no santuário especialmente concebido para elefantes no Alentejo.

Este espaço, em criação num terreno situado nos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal, no distrito de Évora, "dedica-se a proporcionar a elefantes como Julie o espaço, o ambiente e a companhia necessários ao bem-estar da espécie".

"Os elefantes residentes contarão ainda com o acompanhamento de uma equipa especializada, dotada da experiência necessária para apoiar a sua saúde e bem-estar nos seus últimos anos de vida", disse a Pangea Trust.

Contactada esta quinta-feira pela agência Lusa, fonte desta organização explicou que continua a estar previsto que o santuário seja inaugurado com a chegada do elefante Kariba, uma fêmea oriunda do Zimbabué para a Europa e que tem vivido nos "últimos 40 anos em cativeiro" em diversos jardins zoológicos, encontrando-se agora num zoo na Bélgica.

Esse elefante, de idade semelhante à do circo português, "está previsto chegar no final deste mês e, em junho, virá a Julie", precisou a mesma fonte.

"Se ambas as transferências decorrerem conforme o previsto, as duas elefantas poderão finalmente desenvolver a companhia que é tão essencial à sua espécie", realçaram as entidades, no comunicado.

A equipa veterinária da Pangea, pode ler-se, "trabalha já em colaboração com o Circo Victor Hugo Cardinali nas avaliações de saúde necessárias, garantindo que Julie reúne todas as condições para a viagem até ao santuário".

Citado no comunicado, Victor Hugo Cardinali admitiu que "esta não foi uma decisão fácil", porque Julie "é um membro profundamente querido da família há mais de 30 anos".

"Mas acreditamos que esta é a decisão certa para ela. Poder trabalhar em estreita colaboração com a Pangea na transição para a sua nova casa foi determinante para a nossa decisão", vincou.

A diretora-geral da Pangea, Kate Moore, lembrou que, "por toda a Europa, circos e jardins zoológicos estão a chegar a um ponto em que manter elefantes deixou de ser possível ou adequado, seja por alterações legislativas, pela perda de um companheiro ou pela decisão de seguir um novo rumo".

"Trabalhar em parceria com os proprietários para encontrar a solução certa é central à forma como operamos e foi assim que aconteceu com o Circo Victor Hugo Cardinali. As transferências de elefantes são complexas e o seu envolvimento contínuo é inestimável", realçou.

Segundo o comunicado, "com a realocação de Julie, Portugal aplicou com sucesso a legislação que proíbe o uso de animais selvagens em circos", aprovada em 2018 e em vigor desde 2024.

"No início deste ano, a Pangea também ajudou a facilitar a realocação de Sona, o último tigre de circo do país, e Julie não será apenas o último elefante fêmea de circo de Portugal, mas o último animal selvagem em qualquer circo do país", destacou a organização.

Em 06 de novembro do ano passado, em Vila Viçosa, aquando da apresentação do projeto do santuário para elefantes e de uma visita à propriedade onde estava a ser criado, Kate Moore referiu que, em cerca de 10 anos, a Pangea espera "investir 15 milhões de euros" nesta iniciativa.